Por Cleide Gama | Jornal O Folhão
Duque de Caxias: No final da década de 1990, Duque de Caxias passou a integrar, ainda que tardiamente, o mapa da arquitetura brasileira assinada por Oscar Niemeyer, um dos maiores nomes da arquitetura mundial. Em um município historicamente marcado pela força do trabalho e por profundas desigualdades sociais, o arquiteto projetou três obras que simbolizavam cultura, conhecimento e dignidade: o Teatro Municipal Raul Cortez, a Biblioteca Pública Municipal Governador Leonel de Moura Brizola e o Monumento Movimento do Trabalhador.
O projeto nasceu em um contexto de tentativa de requalificação urbana do centro da cidade, especialmente da Praça do Pacificador, área simbólica e de grande circulação popular. A proposta, à época, era clara: levar equipamentos culturais de alto nível ao coração da Baixada Fluminense, rompendo com a lógica histórica que concentrava grandes obras apenas na capital.
Cultura no centro da cidade
Inaugurada em 2004, a Biblioteca Leonel Brizola tornou-se rapidamente um dos principais polos de leitura e formação cultural do município. Com acervo diversificado, atividades educativas e projetos voltados para estudantes da rede pública, o espaço passou a ser frequentado por crianças, jovens e adultos.
“Foi aqui que eu li meu primeiro livro inteiro”, conta Maria das Dores, moradora do bairro Jardim 25 de Agosto. “A biblioteca sempre foi um espaço aberto, acolhedor, diferente de tudo que a gente tinha na cidade.”
Dois anos depois, em 2006, foi inaugurado o Teatro Municipal Raul Cortez, também assinado por Niemeyer. Com capacidade para cerca de 440 pessoas e um projeto arquitetônico que dialoga com a praça, o teatro consolidou-se como um dos principais palcos culturais da Baixada Fluminense, recebendo peças, shows, formaturas e eventos institucionais.
Para o produtor cultural Carlos Henrique Silva, o teatro “representou uma virada simbólica”.
“Duque de Caxias passou a receber espetáculos que antes só iam ao Centro do Rio. Isso tem um impacto direto na autoestima da população.”
O monumento ao trabalhador
Entre as obras, o Monumento Movimento do Trabalhador talvez fosse a mais simbólica. Localizado às margens da Rodovia Washington Luís, o monumento homenageava a classe trabalhadora — base histórica da cidade, conhecida como cidade-dormitório por décadas.
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| Monumento "Movimento do Trabalhador" erguido por Orcar Niemayer que foi demolido pelo prefeito Netinho Reis - foto de reprodução TV Prefeito. |
Críticos de arte destacavam o valor estético e político da obra. Segundo a arquiteta e urbanista Helena Motta, “o monumento dialogava diretamente com a identidade de Caxias. Era uma obra que falava de gente comum, de quem construiu a cidade com o próprio suor”.
Demolição e polêmica
No final de janeiro de 2026, a história desse conjunto sofreu um abalo irreversível. A Prefeitura de Duque de Caxias, sob a gestão do prefeito Netinho Reis, determinou a demolição do Monumento "Movimento do Trabalhador", alegando a necessidade de instalação de uma estrutura de monitoramento urbano com câmeras e tecnologia de segurança.
A decisão foi tomada sem consulta pública e gerou forte reação de moradores, artistas, arquitetos e defensores do patrimônio cultural. Embora o monumento não tivesse tombamento oficial, especialistas afirmam que sua relevância histórica e artística justificava debate amplo antes de qualquer intervenção.
“Não é só concreto que foi ao chão, foi um pedaço da nossa memória”, afirma o comerciário João Batista, que trabalha há 30 anos próximo ao local onde o monumento estava instalado.
Nas redes sociais e em manifestações públicas, críticos acusaram a gestão municipal de desprezo pelo patrimônio cultural e de promover o apagamento simbólico da história da cidade. Para muitos, a demolição revela uma visão utilitarista do espaço urbano, onde cultura e memória são vistas como obstáculos, e não como valores.
O professor Evandro Brasil ao ser consultado nos trouxe a seguinte informação: “Na maioria das cidades do mundo, se houvesse um monumento assinado por Oscar Niemeyer, o gestor público faria exatamente o contrário do que foi feito em Duque de Caxias pelo prefeito Netinho Reis: desapropriaria imóveis do entorno, reorganizaria o espaço urbano e garantiria visibilidade máxima à obra. Aqui, infelizmente, o prefeito optou por destruir um patrimônio de valor histórico, cultural e simbólico inestimável. Essa decisão revela não apenas falta de sensibilidade, mas um profundo desconhecimento do que representa Niemeyer para a arquitetura mundial e para a memória coletiva da cidade.”
“Esse episódio também escancara a negligência do Poder Legislativo local. Os 29 vereadores, assim como os deputados estaduais e federais que representam Duque de Caxias, falharam gravemente ao não criarem mecanismos legais de proteção para esses monumentos. A ausência de leis de preservação demonstra ignorância institucional e descompromisso com a história do município. Quando o Parlamento se omite, abre-se caminho para decisões arbitrárias que empobrecem culturalmente a cidade.” Concluiu o professor Evandro em tom de profunda indignação.
Entre legado e abandono
Enquanto o teatro e a biblioteca seguem funcionando — ainda que enfrentando desafios de manutenção e investimento — a demolição do monumento reacendeu um debate antigo: quem decide o que deve ser preservado em Duque de Caxias?
Para a professora e historiadora Ana Lúcia Ferreira, o episódio deixa uma lição amarga.
“Quando uma cidade destrói sua própria memória, ela empobrece culturalmente. O legado de Niemeyer em Caxias deveria ser ampliado e protegido, não reduzido a escombros.”
A história das obras de Oscar Niemeyer em Duque de Caxias é, hoje, também a história de escolhas políticas. Entre o traço do arquiteto e o concreto demolido, permanece a pergunta que ecoa entre os moradores: qual cidade estamos construindo para o futuro?
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